Eleições 2026 e a disputa pelo problema do país
Quem define o problema controla o debate
Como as campanhas das eleições brasileiras de 2026 disputam a definição das prioridades do país.
- Análise KREVO
Antes de comparar propostas, o eleitor precisa decidir o que merece ser resolvido primeiro. É nessa escolha que começa uma parte decisiva da comunicação política. Uma campanha apresenta um país sufocado pelo custo de vida. Outra destaca avanços e pede continuidade para enfrentar desigualdades. Outras colocam a violência ou a própria polarização no centro da conversa. Cada diagnóstico sugere uma forma diferente de avaliar quem está preparado para governar.
Nas eleições brasileiras de 2026, essa disputa acontece diante de um eleitorado de aproximadamente 158,8 milhões de pessoas, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro. Este artigo examina exemplos da disputa presidencial observados em agosto e setembro, antes do resultado das urnas.
A tese da KREVO é que as campanhas disputam a definição da pergunta antes de disputar a preferência pela resposta. Quem consegue tornar seu diagnóstico relevante ganha espaço para apresentar suas propostas como necessárias.
A disputa começa na escolha da pergunta
Imagine duas pessoas conversando sobre o mesmo país. Uma quer saber por que trabalhar continua insuficiente para pagar as contas. A outra pergunta por que o crime organizado consegue controlar territórios. Ambas podem reconhecer os dois problemas. A diferença está na prioridade e na explicação que procuram.
Uma proposta de redução da jornada de trabalho será examinada de determinada maneira quando a conversa começa pelo cansaço e pela qualidade de vida. Receberá outro enquadramento quando o ponto de partida são produtividade, custos empresariais e contratação. O texto da proposta pode ser o mesmo; mudam as perguntas dirigidas a ele.
A pesquisa em comunicação ajuda a distinguir esses movimentos. No estudo clássico publicado em 1972, Maxwell McCombs e Donald Shaw investigaram a relação entre os assuntos destacados pelos meios de comunicação e os temas considerados importantes por eleitores de Chapel Hill, nos Estados Unidos. A hipótese de agenda-setting trata dessa influência sobre a relevância atribuída aos assuntos. O estudo não demonstrava que a exposição à imprensa determinava automaticamente a escolha de candidato.
Robert Entman, em artigo de 1993, descreveu o framing, ou enquadramento, como a seleção e o destaque de aspectos da realidade que favorecem determinada definição do problema, interpretação de suas causas, avaliação e solução. O autor também reconhece que o entendimento do público pode divergir da intenção de quem comunica.
Aplicados à análise de 2026, os conceitos permitem separar duas perguntas: qual assunto ganhou atenção e qual explicação está sendo oferecida para ele? Falar de segurança é uma escolha de pauta. Apresentar a insegurança como consequência de punição insuficiente, de falhas de investigação ou de descoordenação entre instituições envolve escolhas de enquadramento.
O que as pesquisas permitem afirmar
O ponto de partida precisa ser o que as pessoas efetivamente declaram. Segundo reportagem do Estadão Conteúdo publicada pelo UOL em 2 de setembro, a violência foi a preocupação mais mencionada em uma pesquisa Quaest, com 31%. O levantamento ouviu 2.004 eleitores entre 30 de agosto e 1º de setembro, com margem de erro de dois pontos percentuais e confiança de 95%. A tabela reproduz apenas as categorias destacadas pela reportagem e deve ser entendida como parcial, não como a distribuição completa das respostas.
Preocupação citada

Fonte: Quaest, conforme Estadão Conteúdo/UOL, 2 de setembro de 2026. As categorias acima somam 95% porque reproduzem apenas os itens destacados na reportagem. Recomenda-se consultar a divulgação integral do instituto para a distribuição completa. [4]
O dado de 31% exige uma leitura precisa. A violência liderava aquele levantamento, mas não era a resposta da maioria absoluta. Tampouco o número informa qual candidatura seria considerada mais competente para lidar com ela. A preferência por um tema e a preferência por uma solução são perguntas diferentes.
Outro levantamento, realizado pela Pax/Quaest entre 12 e 15 de setembro e divulgado em meados daquele mês, encontrou 70% dos entrevistados afirmando que a violência havia “aumentado muito” nos dois anos anteriores. A pesquisa ouviu presencialmente 2.004 pessoas de 16 anos ou mais, com margem de erro de dois pontos percentuais e confiança de 95%. [5]
Esse segundo resultado mede percepção de mudança. Não equivale a dizer que a criminalidade aumentou 70%, nem substitui estatísticas de ocorrências, homicídios ou vitimização. Ele também não deve ser colocado ao lado dos 31% como se ambos medissem a mesma coisa: o primeiro número trata da preocupação mais citada; o segundo, da percepção de evolução da violência.
Para a KREVO, a informação relevante é a existência de preocupações que disputam espaço. As pesquisas mostram fotografias de hierarquias e percepções em datas determinadas; não identificam, sozinhas, quem produziu esses resultados. Experiência pessoal, acontecimentos, cobertura jornalística e propaganda podem participar da formação das respostas. Atribuir o resultado exclusivamente a uma campanha exigiria evidência adicional.
Continuidade e insatisfação oferecem leituras diferentes da economia
Uma edição televisiva exibida em 29 de agosto ofereceu um exemplo concreto. Segundo o UOL, Lula destacou realizações de seus governos e propostas para um novo mandato, incluindo a isenção do Imposto de Renda para rendimentos de até R$ 5 mil e o apoio ao fim da escala 6x1. Flávio Bolsonaro enfatizou o crime organizado e o endividamento das famílias. A data é tratada aqui como a edição analisada, não como a estreia geral da propaganda eleitoral, que começou em 16 de agosto segundo o calendário eleitoral. [6]
A diferença aparece na relação entre passado, presente e futuro. Na leitura da KREVO, a mensagem de continuidade procura estabelecer que avanços existentes justificam confiança na próxima etapa. A mensagem de oposição procura fazer da insatisfação atual uma referência central para julgar a gestão. Isso é uma interpretação da construção das mensagens, não uma avaliação da veracidade de cada alegação.
No programa de Lula disponível no TSE, a proposta de acabar com a escala 6x1 vem acompanhada da redução da jornada para 40 horas semanais, sem redução salarial. O documento apresenta essas medidas como objetivos de atuação junto ao Senado. Trata-se de compromisso de programa, não de comprovação de que a mudança já esteja implementada. [7]
A escolha permite discutir a economia por meio do tempo disponível para viver, do esforço exigido pelo trabalho e da distribuição de seus benefícios. O objeto da conversa passa a ser mais amplo que a existência de uma vaga: inclui as condições em que o trabalho acontece.
O plano de Flávio Bolsonaro oferece outro diagnóstico. Na apresentação, associa o aperto das famílias ao gasto público e ao desequilíbrio das contas do Estado; no desenvolvimento, reúne propostas sob títulos como “Brasil mais barato”. Essa relação causal é defendida pela candidatura e deve ser lida como sua tese política e econômica. [8]
O enquadramento aproxima temas institucionais da conta de supermercado, do crédito e do dinheiro disponível ao final do mês. Antes de examinar cada medida, o leitor é convidado a aceitar uma explicação sobre a origem do problema.
Uma reportagem da Reuters publicada em 26 de setembro documentou essa disputa: Flávio vinha utilizando comparações de preços de supermercado, enquanto a campanha de Lula contestava as afirmações e ressaltava indicadores econômicos. A agência também informou, citando o Banco Central, que o comprometimento da renda das famílias com dívidas, excluído o financiamento imobiliário, alcançara 26,6% em junho. [9]
Esse dado ajuda a compreender por que renda e preços não encerram a discussão sobre bem-estar. Parte do orçamento já pode estar comprometida antes de qualquer nova compra. Além disso, desaceleração da inflação significa aumento de preços em ritmo menor; por si só, não significa retorno ao nível anterior de preços.
Há, portanto, diferentes critérios de comparação em circulação: a trajetória dos indicadores, o poder de compra percebido e a disponibilidade concreta de renda. Uma análise rigorosa precisa perguntar qual período, qual indicador e qual experiência cada mensagem privilegia. A divergência não pode ser resolvida chamando toda insatisfação de desinformação ou tratando qualquer indicador favorável como propaganda.
Segurança reúne candidatos que divergem sobre o diagnóstico
Quando um assunto ocupa posição de destaque, candidaturas diferentes podem tentar disputar sua interpretação. A cobertura da CNN Brasil sobre os primeiros atos e peças de campanha, publicada em 16 de agosto, registrou Lula defendendo a criação de um Ministério da Segurança Pública, condicionada à aprovação da PEC da Segurança, e Flávio propondo castração química para autores de crimes sexuais. [10]
As escolhas de destaque sugerem respostas distintas à pergunta sobre o que falta ao Estado. Uma enfatiza coordenação e capacidade institucional. A outra enfatiza severidade penal. Essa leitura se refere às mensagens selecionadas para a abertura da campanha; não resume todos os elementos dos programas.
No documento de Lula, aparecem integração no Sistema Único de Segurança Pública, inteligência e asfixia financeira do crime organizado. O programa de Flávio inclui classificação de facções como organizações narcoterroristas, redução da maioridade penal e expansão prisional. São propostas registradas, cuja presença no texto não demonstra eficácia, constitucionalidade ou viabilidade de execução. [7][8]
A Deutsche Welle, em reportagem de 24 de setembro republicada pelo UOL, identificou divergências sobre o emprego das Forças Armadas, o sistema prisional e o tratamento jurídico das facções. Sua comparação mostra que a disputa permanece mesmo quando os candidatos concordam em colocar a segurança no centro das atenções. [11]
Ronaldo Caiado também participa dessa disputa. A CNN registrou a intenção de sua campanha de apresentar a gestão em Goiás como credencial para a segurança pública. Seu programa disponibilizado pelo TSE reúne propostas de inteligência criminal, combate ao financiamento do crime e criação de uma estrutura ministerial dedicada ao tema. [12][13]
Esse terceiro exemplo impede uma simplificação frequente. Instrumentos como inteligência ou um ministério específico não pertencem exclusivamente a uma candidatura. Há sobreposições entre programas, diferenças de ênfase e disputas sobre quem teria capacidade de executar medidas semelhantes.
A questão analítica passa a ser qual deficiência recebe mais destaque e qual prova de competência acompanha o diagnóstico. Biografia, experiência de gestão, dureza do discurso e desenho institucional oferecem tipos diferentes de justificativa. Compará-los exige examinar resultados, custos e condições de implementação, além da força da apresentação.
Corrupção também é uma disputa de responsabilidade
Uma palavra pode ser compartilhada por adversários sem que eles estejam construindo a mesma narrativa. Corrupção é um exemplo. O UOL relatou que o primeiro programa televisivo de Lula abriu com ataques ao histórico de Flávio. A CNN já havia descrito a preparação de conteúdos da campanha do senador para associar o PT a casos de corrupção. [6][13]
Nesses movimentos, a discussão envolve quem deve responder pelo problema e quem pode se apresentar como alternativa a ele. Ao selecionar episódios, relações e períodos, uma campanha oferece ao público uma interpretação sobre responsabilidade política.
O registro de que uma acusação apareceu na propaganda comprova a existência da mensagem. A responsabilidade jurídica depende de investigação, provas e decisões próprias. Confundir essas duas camadas transforma a análise de comunicação em reprodução de acusações.
Para compreender o enquadramento, interessa observar quais vínculos são destacados e quais informações ficam fora da peça. Uma mensagem pode mencionar fatos verdadeiros e ainda assim produzir uma compreensão incompleta, por exemplo, quando omite datas, desfechos ou o contexto necessário para avaliar o episódio.
Quando a própria polarização vira o problema
Existe ainda uma tentativa de reorganizar o debate a partir de sua forma. Em vez de começar por uma política setorial, essa leitura apresenta o conflito entre campos políticos como obstáculo à solução dos problemas.
No primeiro ato de campanha de Augusto Cury, em 16 de agosto, o combate à polarização foi apresentado como eixo da candidatura, segundo reportagem do Correio Braziliense republicada pelo Diario de Pernambuco. O candidato defendeu diálogo entre grupos e criticou a transformação de adversários em inimigos. [14]
Na interpretação da KREVO, esse enquadramento desloca a atenção para a capacidade de convivência e construção de acordos. A apresentação pessoal do candidato passa a dialogar com o diagnóstico que ele oferece: se o conflito é descrito como o bloqueio central, a capacidade de reduzi-lo se torna parte de sua proposta de valor.
O movimento também precisa ser examinado criticamente. Discordâncias sobre orçamento, direitos e políticas públicas não desaparecem porque o tom da conversa melhora. Uma promessa de conciliação continua sujeita às perguntas sobre conteúdo, prioridades e execução. Reconhecer a função comunicacional dessa narrativa não comprova que ela explique todos os impasses do país.
Os exemplos examinados revelam, assim, tentativas diferentes de organizar a escolha. Algumas enfatizam resultados e continuidade; outras, insatisfação e mudança; outras, experiência de gestão ou superação do conflito. São recortes de mensagens observadas, não definições completas das candidaturas.
A proposta chega acompanhada de uma explicação sobre o país
Ao observar essas mensagens em conjunto, aparece um padrão: o anúncio de uma medida costuma vir acompanhado de uma explicação sobre por que ela seria necessária. Essa explicação liga a experiência apresentada, sua causa presumida e a resposta prometida.
Um relato sobre insegurança pode conduzir à necessidade de punição mais severa ou à necessidade de investigação mais eficiente. Um orçamento doméstico pressionado pode ser associado a impostos, salários, juros ou endividamento. Cada passagem precisa ser sustentada; reconhecer o sofrimento inicial não torna automaticamente correta a causa escolhida.
É nesse ponto que o posicionamento se torna visível. A campanha seleciona uma parte da realidade e a organiza como centro de sua argumentação. A proposta ganha coerência dentro desse diagnóstico, mesmo quando outras candidaturas partem de explicações diferentes.
Também importa a escolha da cena. Uma estatística nacional, uma compra de supermercado e uma experiência de violência têm escalas diferentes. A cena individual facilita a compreensão de uma consequência concreta, mas não representa, sozinha, a situação de toda a população. O indicador agregado amplia a visão, mas pode esconder diferenças relevantes entre experiências.
A leitura editorial da KREVO é que a análise deve circular entre essas escalas. O caso dá materialidade ao número; o número ajuda a avaliar até onde o caso pode ser generalizado. Quando uma comunicação usa apenas a escala que favorece seu argumento, o público recebe uma explicação com lacunas.
A influência sobre a pauta encontra limites
Uma campanha pode obter grande circulação e continuar sem convencer. Também pode conseguir que adversários respondam a seu tema sem conquistar confiança para solucioná-lo. Atenção, concordância com um diagnóstico e disposição para votar são resultados distintos.
Por isso, visualizações, comentários e presença em manchetes não bastam para declarar vitória na disputa de enquadramentos. Um conteúdo pode circular por crítica, rejeição ou repercussão jornalística. O volume de circulação não informa sozinho como foi interpretado.
As pesquisas apresentadas neste artigo tampouco medem o efeito causal das peças citadas. Elas documentam preocupações e percepções em datas determinadas. A coincidência entre uma pauta frequente na propaganda e uma preocupação elevada entre entrevistados admite mais de uma explicação: a campanha pode estar respondendo ao público, contribuindo para a atenção ao tema ou participando dos dois movimentos.
O título deste artigo deve ser entendido nesse sentido: definir o problema oferece influência sobre os critérios da conversa. Essa influência é disputada por outras campanhas, pela imprensa, por acontecimentos e pelas experiências das pessoas. A relevância de uma narrativa depende de encontrar uma realidade que o público reconheça e de resistir ao confronto com evidências.
A leitura da KREVO para o posicionamento das empresas
Para uma empresa, a aplicação mais útil dessa análise começa no diagnóstico. O cliente também chega a uma decisão carregando uma explicação sobre o que precisa resolver. Essa explicação orienta quais fornecedores ele compara e quais entregas considera valiosas.
Considere uma empresa que pede mais leads. Se os dados mostrarem pouca procura qualificada, a aquisição pode ser a prioridade. Se houver oportunidades suficientes e demora no atendimento, ampliar o tráfego pode aumentar o desperdício. Se as propostas chegam a compradores inadequados, o problema pode envolver posicionamento, oferta ou qualificação. São hipóteses diferentes, que exigem verificação.
O mesmo cuidado vale para uma clínica que procura melhorar sua presença digital. A solução adequada depende de entender como as pessoas encontram o serviço, compreendem a proposta, entram em contato e conseguem agendar. Reduzir esse percurso à aparência das publicações pode deixar o principal obstáculo intocado.
A autoridade de uma assessoria se constrói quando ela consegue explicar essa diferença com evidências do negócio. Isso exige escuta, análise das etapas da jornada e disposição para revisar a hipótese inicial. Enquadrar corretamente a necessidade ajuda o cliente a decidir; inventar uma dor para encaixar um serviço compromete a confiança.
Essa é a relação com a tese central do artigo. A forma de definir um problema orienta os critérios usados para avaliar a solução. Quando o diagnóstico é claro, o investimento passa a ter um propósito verificável: melhorar a qualidade das oportunidades, reduzir perdas no atendimento, comunicar uma diferença relevante ou facilitar a contratação.
Na KREVO, esse trabalho conecta consultoria de negócio e posicionamento a branding, conteúdo, sites, landing pages, funis, automação, CRM e treinamento comercial. A combinação de serviços deve responder ao que foi identificado em cada operação. A execução ganha direção quando marca, experiência digital e equipe de vendas trabalham a partir da mesma compreensão do cliente.
Um diagnóstico claro dá direção à execução
As eleições de 2026 mostram como propostas semelhantes podem ganhar sentidos diferentes quando são apresentadas a partir de diagnósticos distintos. Também mostram por que a explicação mais convincente precisa ser examinada: ela pode organizar a conversa sem encerrar a discussão sobre causas, custos e resultados.
Para o seu negócio, a pergunta é concreta: sua comunicação apresenta com clareza o problema que você resolve e as evidências de que consegue resolvê-lo?
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